Toda fonte de satisfação, como o álcool (isso para quem gosta de consumi-lo, claro), traz consequências se perdermos a noção dos limites que nosso corpo é capaz de suportar.

Mas existe uma outra utilidade na ressaca. Muitas vezes ela é boa — isso mesmo. E, com mais frequência do que parece à primeira vista, as pessoas podem beber buscando exatamente o mal-estar do dia seguinte. Deve ser por isso que os escoceses dizem que sua verdadeira bebida típica não é o uísque, mas sim o Irn Bru, o remédio mais popular para curar ressaca no país.

O motivo para procurarmos o mal-estar, de forma até proposital, é fácil de explicar. Em momentos de grande perda, seja a morte de uma pessoa querida, o fim de um relacionamento ou uma demissão, buscamos, de alguma forma, transformar o mal-estar psicológico em físico. Assim, conseguimos experimentá-lo em toda a sua intensidade. Ir ao fundo do poço. Quando a ressaca se vai, é como se ela levasse consigo ao menos parte daquele grande desconforto emocional que experimentamos junto com a dor de cabeça e o enjoo. Nem sempre funciona, mas é uma tentativa válida. Mais do que isso, é uma forma simbólica de buscar uma espécie de ressurreição curta.

Veja bem, não estou defendendo o alcoolismo, uma doença grave, que destrói famílias e mata de várias formas — em especial quando a pessoa comete a irresponsabilidade de dirigir. Tampouco acho que beber soluciona o problema ou a tragédia que trouxe grande infelicidade. Estou apenas apresentando uma hipótese para os motivos de tanta gente beber tanto, desde que o ser humano existe, mesmo sabendo o que o futuro próximo vai trazer como consequência (os americanos não fazem questão de lembrar, mas, ao longo do século 19, as decisões mais cruciais dos rumos do país foram tomadas por grupos de políticos bêbados. Ou de ressaca).

O importante é: se você gosta de bebida e exagera de vez em quando, tente enxergar o dia seguinte sob uma nova perspectiva. Ele traz uma grande oportunidade de recuperação e, quem sabe, de um pequeno recomeço. Para isso, é preciso não se limitar ao remorso de ter bebido. É preciso aproveitar a sensação de lutar para se sentir melhor e ser bem-sucedido.

Inigo Thomas é jornalista e crítico cultural britânico que escreve para a London Review of Books e para o site de notícias Slate.com
Fonte: Revista Galileu

Nenhum comentário:
Postar um comentário